O comboio de Auschwitz

No livro Railways: Their Rise, Progress and Construcion, o engenheiro Robert Ritchie arriscou uma profecia: «Os caminhos de ferro iluminarão os preconceitos e contribuirão para que os membros da grande família humana se conheçam melhor; tenderão assim a promover a civilização e a paz no mundo.» Estávamos em 1846. O Concerto da Europa já se desconcertava e cem anos mais tarde limpavam-se os destroços de uma civilização quase perdida. Serve isto como aviso aos incautos, aos deslumbrados da técnica e da ligação global e dos «comboios digitais», aos feiticeiros da «inovação»: o progresso é uma ilusão, a evolução é apenas adaptação, e estamos sempre tão perto da partir pedra novamente como de aterrar em Marte.

Carlos M. Fernandes

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Da inevitabilidade da morte

«La Jetée» (Chris Marker, 1962), objecto bizarro e confortavelmente instalado entre a fotografia, o cinema e a literatura, fala-nos do passado, essa carga que nos estrutura e condena, que se pode até confundir com o futuro, mas que, quando corrompe e coarcta o presente, se transfigura em aviso insistente e insuportável sobre a inevitabilidade da morte – a dada altura, ouve-se, em alemão, entre murmúrios imperceptíveis de médicos mengelianos, «die Hälfte von ihm ist hier, die andere Hälfte ist in die Vergangenheit» (metade dele está aqui, a outra metade está no passado), enquanto a metade do passado visita uma galeria de pássaros embalsamados.

Carlos M. Fernandes

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O espelho embaciado do passado

No conto Tlon, Uqbar, Orbis Tertius, Jorge Luis Borges, por interposta personagem, diz que «os espelhos e a cópula são abomináveis, pois multiplicam o número de homens». A fotografia, espelho com memória – ou «o espelho embaciado do passado», como lhe chamou Vladimir Nabokov – não só os multiplica, como o faz numa cadência exponencial. Cuidado, pois, com o frenesim das imagens e o impulso narcisista. Não sabemos quantos mais homens e mulheres aguentará o mundo – que balança já no limite do alvoroço visceral.

bbp0093-m06Bill Brandt

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A excelência perdida

George Steiner comprimiu os quatro anos do curso de geral de Yale em apenas um (proeza que só é exequível quando uma mente brilhante encontra um sistema de ensino civilizado). Nesse período, estudou física, química, matemática, poética, epistemologia, filosofia e antropologia, entre outras áreas do conhecimento. Com a licenciatura nas mãos, enveredou pelas letras. Mas foi, para essa viagem, equipado com um manancial inesgotável de recursos para exprimir o mundo.

ng-436Jean-Baptiste Greuze, Rapaz com Livro de Estudo, 1757

Não sabemos se a universidade de Yale ainda estimula o conhecimento horizontal. O cancro da especialização já metastizou por todo o corpo da academia mundial. Sabemos que em Portugal e, em geral, na Europa, a aprendizagem multidisciplinar é, ao dia de hoje, uma quimera. Mesmo o ensino básico já foi destituído de todos os elementos que estruturam um ser humano minimamente decente. O inglês, numa perspectiva utilitarista, tomou o lugar que, em tempos saudosos, foi do latim (e, a julgar pelo que se vai ouvindo nas ruas, do português). A programação, novíssima obsessão da geração do efémero, avança como um elefante desastrado através de arrecadações mentais que ainda não estão convenientemente organizadas. À memorização e repetição, tocou-lhes em sorte o degredo, reservado para os expedientes de aprendizagem incompatíveis com o «progresso». E os clássicos, sem os quais não sabemos ler(-nos), são gradual e insidiosamente substituídos por panfletos de vulgaridade. Acrescentemos o nivelamento, a demonização da excelência, a estrangulamento de capacidades e o louvor da trivialidade, e temos o retrato completo de um crime perpetrado por uma quadrilha de medíocres, entre ideólogos e executores, que, como é habitual nas criaturas banais, avaliam os outros pela sua própria medida, denegando-lhes a possibilidade de fazer melhor, de superar desafios mais exigentes. Ora, aqueles que, com o voto, a solicitude, ou mesmo o silêncio, pactuam com a restrição dos horizontes de uma geração, são cúmplices do crime. E um cúmplice, em qualquer tempo ou lugar, é um criminoso.

Carlos M. Fernandes

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Vós que entrais, deixai toda a esperança

«This is where your misery starts, this is where your mystery stops. We’ll rent a television, to replace Pandora’s Box»
Momus, Murderers the Hope of Women

Zeus ordenou. E os deuses fizeram-na e chamaram-lhe Pandora, a que tudo dá. Prendada, e dotada de natureza ardilosa, curiosidade e uma função, foi levada à Terra, por Hermes, e oferecida a Epitemeu. O titã, indiferente aos avisos do irmão, Prometeu, e ignorante do olímpico castigo que se aproximava, aceitou-a e tomou-a como sua mulher. O plano de Zeus cumpria-se sem sobressaltos. Faltava o presente de união, a vasilha, cavalo de Tróia do mal, estacionado pelos deuses em casa dos prometidos e às portas de uma Terra primitiva e pura. Desprovida de livre-arbítrio, Pandora consumou o seu destino e o da humanidade: abriu a vasilha e, inadvertidamente, libertou os males. Somente a esperança, pouco expedita, ficou cativa do receptáculo perverso. Assim reza a história de «Os Trabalhos e os Dias» de Hesíodo.

O inventário da vasilha não cessa de intrigar os académicos. Por que razão Hesíodo guardou a esperança entre os males? A justificação mais simples não satisfaz o exagerado optimismo da condição humana. Ensaiaram-se então exegeses salvíficas da reputação da esperança: hipóteses fundamentadas nas dificuldades de tradução; interpretações da esperança como antídoto para as desgraças espalhadas pelos ex-companheiros de clausura; recuos às anteriores versões do mito. São teorias, e uma teoria, nas humanidades, «é uma intrujice» (Steiner). Preferimos a explicação literal: na narrativa de Hesíodo, a esperança é efectivamente um mal, um convite à inacção, à resignação com o presente insuficiente em troca de promessas de um futuro melhor. Não é esse um dos fios condutores da história humana? Não é, ao dia de hoje, a esperança, o eufemismo recorrente para aquilo que mais propriamente poderíamos descrever como a rendição ao tédio burguês?

girl-with-a-dead-canary-jean-baptiste-greuzeJean Baptiste Greuze, Rapariga com Canário Morto, 1765

A esperança não é «aquela coisa com penas», adejante, reconfortante, do poema de Emily Dickinson (e cuidado com as leituras precipitadas dos versos da grande mestre da ironia). É a criatura feroz de Isodore Ducasse, a que traz uma «presa ensanguentada» nos dentes, «constantemente sacudida através das imensas regiões do espaço pelo implacável limpa-neves da fatalidade.» É o retrato prematuro do fracasso.

Carlos M. Fernandes

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A Geórgia no Pensamento

Não há lugares inúteis. Há lugares aborrecidos, hostis, fechados, planos, rotineiros. Nunca inúteis. Sobra-me um dia em Atlanta (e nenhum no cruzamento da 10 com a Hemphill). Sentado no terraço do City Café, pouso o «O Paraíso na Outra de Esquina» sobre a mesa e tento dispensar atenção à cidade. À distância, as torres da baixa parecem decorações de um Natal antecipado, quente e húmido como uma sauna húngara. Em frente, está o campus da Georgia Tech e o meu apartamento. A norte, a Hemphill segue, entre casas de madeira e árvores de copa fresca e larga ─ de noite, o trajecto é escuro e habitado por ruídos bestiais ─, até ao cruzamento com a 14, onde se encontra outra «praça de alimentação»: McDonalds, Burger King e uma estação de serviço. Volto ao Vargas Llosa. Na página 149 lê-se: «Há cidades que uma pessoa detesta sem conhecer.» Mas nunca são inúteis. Durante o dia, com o sol, o zumbido do calor e os fragmentos de selva que prosperam entre o betão, deixamo-nos cativar por esta incubadora da tragédia, substância vital da literatura do sul norte-americano ─ o velho sul, que vai do Delaware à Geórgia, antes do sul profundo do Alabama e Mississipi. As noites trazem a frescura possível e estimulam a indolência meridional e as virtudes e os vícios. Contudo, depois da exuberância vem sempre a queda: o Outono chegará e com ele o vento. Bebo mais um trago da Sweetwater e penso naquilo que o Peter me disse poucos dias antes da viagem, sentado no balcão do bar do Simon: «Quando tiver oitenta anos, só quero sentar-me e recordar». O Peter morreu com 65 anos.

 

Atlanta 22Atlanta, Julho de 2008

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Quadros de Madrid Antiga

Primeiro chamou-se Teatro do Instituto, depois da Comédia, e por fim ficou Tirso de Molina, em honra do autor de «El Burlador de Sevilla» (a obra que deu origem à lenda de Don Juan e que inspirou o «Don Giovanni» de Mozart e muito mais). Era uma casa pequena, com cerca de 850 lugares. Foi inaugurado no convento da Trindade (que viria a ser demolido em 1897), mas em 1845 o Instituto Espanhol mandou construir-lhe uma nova sede, na rua de Arosas, viela hoje desaparecida e que se situava entre a Relatores e a Cañizares, mesmo à beira da Atocha (rua). Palco de comédias, dramas e bailes andaluzes, o teatro teria ficado perdido na agitação da história se não tivesse sido ali, em 1849, que renasceu a zarzuela, com as estreias de «Los Enredos de un Curioso», «Las Sacerdotisas del Sol», «Palo de Ciego» e «Colegialas y Soldados». Hoje, a zarzuela tem um teatro próprio e do Tirso de Molina não há o mais leve sinal.

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