Animais magníficos

A pantera de Rilke, na tradução de Paulo Quintela, tem «o brando andar de passo forte e dúctil». O verso, que abre a segunda estrofe, canta, em antíteses suaves – brando e forte, forte e dúctil –, a dualidade de uma criatura nobre «em que está aturdido um grande querer». Um grande querer circunscrito pelo cativeiro – a repetição da palavra «barras», na primeira estrofe, descreve tão bem o desespero da reclusão e a inutilidade da esperança – e, de «onde em onde», derrotado por um prenúncio de morte. Não há, na história da literatura, palavras que descrevam de forma mais clara o drama da encarceração, tantas vezes voluntária, numa vida sem significado, despida da transcendência e espiritualidade que ajudam a suportar as pequenas misérias quotidianas. Há animais magníficos perdidos para o mundo por detrás de barras deliberadas.

Carlos M. Fernandes

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