A excelência perdida

George Steiner comprimiu os quatro anos do curso de geral de Yale em apenas um (proeza que só é exequível quando uma mente brilhante encontra um sistema de ensino civilizado). Nesse período, estudou física, química, matemática, poética, epistemologia, filosofia e antropologia, entre outras áreas do conhecimento. Com a licenciatura nas mãos, enveredou pelas letras. Mas foi, para essa viagem, equipado com um manancial inesgotável de recursos para exprimir o mundo.

ng-436Jean-Baptiste Greuze, Rapaz com Livro de Estudo, 1757

Não sabemos se a universidade de Yale ainda estimula o conhecimento horizontal. O cancro da especialização já metastizou por todo o corpo da academia mundial. Sabemos que em Portugal e, em geral, na Europa, a aprendizagem multidisciplinar é, ao dia de hoje, uma quimera. Mesmo o ensino básico já foi destituído de todos os elementos que estruturam um ser humano minimamente decente. O inglês, numa perspectiva utilitarista, tomou o lugar que, em tempos saudosos, foi do latim (e, a julgar pelo que se vai ouvindo nas ruas, do português). A programação, novíssima obsessão da geração do efémero, avança como um elefante desastrado através de arrecadações mentais que ainda não estão convenientemente organizadas. À memorização e repetição, tocou-lhes em sorte o degredo, reservado para os expedientes de aprendizagem incompatíveis com o «progresso». E os clássicos, sem os quais não sabemos ler(-nos), são gradual e insidiosamente substituídos por panfletos de vulgaridade. Acrescentemos o nivelamento, a demonização da excelência, a estrangulamento de capacidades e o louvor da trivialidade, e temos o retrato completo de um crime perpetrado por uma quadrilha de medíocres, entre ideólogos e executores, que, como é habitual nas criaturas banais, avaliam os outros pela sua própria medida, denegando-lhes a possibilidade de fazer melhor, de superar desafios mais exigentes. Ora, aqueles que, com o voto, a solicitude, ou mesmo o silêncio, pactuam com a restrição dos horizontes de uma geração, são cúmplices do crime. E um cúmplice, em qualquer tempo ou lugar, é um criminoso.

Carlos M. Fernandes

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