Diários da Ericeira (13-04-2014)

A lenda catalã do marinheiro de Sant Pau conta a história de um embarcadiço que, com terra à vista, é colhido por um temporal súbito e violento. Agarrado a um remo, consegue chegar à costa, apenas para descobrir que, da sua casa, só sobram destroços, e da família não restam vivos. Devastado pela raiva e pela tristeza, aferra-se ao remo e adentra-se em terra firme.

O marinheiro caminhou durante dias, semanas, meses. Queria chegar a um lugar onde o mar, origem da sua tragédia, não fosse cohecido. Por isso, com o remo na mão, perguntava a quem encontrava: o que é isto?  Um remo, respondiam. E o marinheiro afastava-se.

Um dia entrou numa aldeia e, à mesma pergunta, um grupo de pastores finalmente contestou: parece uma pá de forno. Ali ficou. Longe do mar e da sua fúria, pensava. Porém, como diz Jorge Manrique nas Coplas por la Muerte de su Padre, «nuestras vidas son los rios / que van a dar en la mar / qu’es el morir.» Ao mar regressamos sempre. Resignados. Ainda que, como se escutássemos a súplica de Dylan Thomas na morte do seu próprio pai, flutuemos, agarrados a um remo providencial, nas águas já salobras de um rio onde, segundo Heraclito, não entramos duas vezes.

Ericeira, 13 de Abril de 2014

Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s