Paris (6)

A noite chegou a Paris antes de nós. Silhuetas de prédios anónimos recortadas pela escuridão, o comboio, subúrbios, túneis e mais subúrbios. E a Gare du Nord ali estava, imutável, como há doze anos, quando já havia tempo, mas era um tempo ainda brando e cheio de promessas. A vida vem, escreveu Virginia Woolf. A vida vai-se embora. Fazemos a vida.

Descemos a Rue la Fayette. Do lado direito, ainda perto da zona de influência da estação, há um jardim e uma igreja, entre as ruas Bossuet e Fénelon. Foi este último, Fénelon, quem disse, em Éducation des Filles, que as mulheres arruínam e sustentam um casa, regem as coisas domésticas, y, por conseguinte, decidem sobre tudo o que se relaciona mais estreitamente com o género humano. E podia também ter dito que, nas sociedades latinas, como a balança pende mais para o lado feminino, o resultado é uma sociedade cobarde, pouco avessa ao risco. Uma sociedade de meninos. Mas adiante, que ainda há muita la Fayette pela frente até ao cruzamento com a Rue Cadet, via estreita atestada de tesouros parisienses. No final da Cadet, já na esquina da Faub. Montmartre com a Provence, há uma maison fundée en 1761: vins, fruits secs, fruits confits, etc, etc. Duzento e cinquenta anos. Muito tempo para estes tempos de tão pouca memória. Louve-se a perseverança.

Instalámo-nos ali ao lado, no Hotel Opera Drouot, Rue de la Grange Bateliere, número 4. O quarto está no primeiro andar, virado para a Bateliere e para o restaurante japonês do outro lado da rua. À direita de quem espreita pela janela, está a esquina da Rue Rossini; o homem, ou o que resta dele, descansa uns quilómetros a leste deste bairro, no Père Lachaise, juntamente com Marietta Alboni, Bizet e Chopin. Este último,  jaz sem coração. Não por causa da inevitável corrupção, mas porque o nacionalismo é sempre serôdio e alguns polacos não descansaram enquanto não levaram uma relíquia do compositor para Varsóvia. Voltemos para dentro. No quarto, há espaço para duas camas, uma mesa franzina e uma cadeira. E pouco mais. Na parede, por cima da mesa, está pendurada uma TV plana. Faltam tomadas eléctricas. Serve.

Saímos do hotel. François Mauriac disse que Paris é o lugar do mundo onde nos sentimos mais livres, o lugar onde poderíamos sempre fazer uma coisa distinta da que fazemos. O problema é precisamente esse: em cidades como Paris, por muito interessante que seja o que planeamos fazer, há sempre algo melhor como opção. É estimulante. É também angustiante. Mas descemos a Rue de Montmartre. Depois de algumas voltas, acabámos na Pont Neuf, a mais antiga de Paris, apesar do nome. (Há também a Pont Neuf de Cartier-Bresson, a cortar uma Ile de la Cité com uma cabeleira de árvores de inverno, mascarada de cenário bucólico, uma imagem atípica na obra do fotógrafo francês.)

Está frio. As luzes e a neblina dão à cidade um lustre que evoca Brassai. A esta hora, Paris não tem cor, veste-se de preto-e-branco. (Mais do que literária, Paris é uma cidade fotográfica.) Caminhamos pelas ruas que durante o dia estão intransitáveis e agora escutamos os nossos próprios passos. Está muito frio. Voltamos para Norte, pela Rue du Louvre. Uma cerveja antes de regressar ao hotel. E uma noite descansada a sonhar com outras Paris.

Paris, Novembro de 2011

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