Miguel Delibes

Um dos temas principais da obra de Miguel Delibes é o conflito entre o meio rural e o meio urbano, entre um mundo que desaparece, amargado e melancólico, para dar lugar ao progresso e à burocracia do poder central. Nascido em 1920, Delibes foi testemunha da transição entre os séculos XIX e XX — diz-se que, sociologicamente, o século XX espanhol só começou depois da Guerra Civil. Natural de Valladolid, foi nas Castelas que situou algumas das suas novelas mais importantes, porque foi aí, amigado com aqueles que tentavam proteger o seu modo de vida de um Estado paternalista e os bolsos de uma hacienda insaciável, que aprendeu a ser homem e escritor. Nesses ambientes, mais próximos das veredas e das ventas por onde Don Quijote repartia a sua loucura do que dos teatros da Gran Vía madrilena, Delibes desenha personagens individualistas e desconfiadas, que toleram mais facilmente a beata da aldeia, tantas vezes incapaz de conter os impulsos de uma cultura que tem sempre o pecado e culpa para enquadrar os “vícios”, do que a beatice que lhes é imposta pelos agentes do governo. Que um povo tão descrente em poderes distantes e abstractos, e tão inflexível na hora de satisfazer o fisco, tenha acabado por aceitar, e até defender, um Estado ubíquo, não é nenhum mistério. Mas é certamente um bom objecto de reflexão.

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