Memória

Nas terras agrestes de Castela, havia (ou há), entre os pastores, o hábito de gravar a história da família num cajado de madeira. Passo a explicar. Primeiro, o pastor cinzela o seu nome no cajado, e logo os nomes dos pais. Quando se casa, depois de um ancestral ritual de cortejo no qual o bastão é o actor principal, ajunta o nome da mulher e dos pais desta. Os filhos, quando chegam ao mundo, também já têm um lugar reservado, e, quando crescem, aprendem as letras de um alfabeto talhado na mesma madeira pelo pastor. Hoje já não se escreve em papel, muito menos na quase eterna madeira. Há cada vez mais informação virtual, invisível e efémera: evapora-se como a feromona de uma colónia de formigas decadente e condenada. Quando perdermos o rasto dos nossos antepassados, marcado num cajado, numa biblioteca, ou num postal, perdemos a memória. E, como dizia Luís Buñuel, ainda que num contexto mais personalizado: Viver sem memória, não é vida. (…) a nossa memória é a nossa coerência, a nossa razão, o nosso sentir, até as nossas acções. Sem memória não somos nada.

p 18

Granada, Janeiro de 2012

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