A invenção da burguesia

Sobre a ideia de Homem nos poemas homéricos, Maria Helena da Rocha Pereira diz-nos que falta, aos poemas, «uma concepção unitária da personalidade (…), [a] noção de vontade, que é posterior e, ipso facto, a de livre-arbítrio, que só naquela pode originar-se.» Alan Lighman, nas suas fábulas sobre a natureza do tempo, afirma, a páginas tantas, que «num mundo com o futuro pré-estabelecido», sem livre-arbítrio, portanto, «não pode haver bem nem mal.» O que nos conduz novamente à perplexidade de Kundera: por que razão Ulisses trocou Calipso — e a imortalidade e uma vida de alegrias e aventuras — por Penélope e a ilusão da harmonia doméstica?

Carlos M. Fernandes

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Paraíso perdido

Um clássico questiona-nos, alguém disse. Desafia a classificação e compreensão definitivas. Provoca uma reacção. Obriga-nos a regressar, uma e outra vez, enquanto nos comunica a terrível verdade: pior do que não ler um livro, é não o ler vezes suficientes. Vem isto a propósito do regresso, quase duas décadas após o primeiro contacto, à trilogia essencial da ficção de Albert Camus, começando pelo fim (A Queda). E da constatação, cruel, de que a suficiência não é uma medida literária e quase todos os livros que temos em casa estão, e ficarão, por ler.

Carlos M. Fernandes

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Diários de Granada (16-01-2013)

O céu carregado ameaçou neve. Com a chuva e a luz filtrada pelas nuvens, a praça da Hípica cobriu-se do tom metálico característico do Inverno granadino. O Alhambra esteve invisível durante a tarde e a serra escondida pelo manto plúmbeo. Nevou ali ao fundo, talvez à altura de Monachil enquanto cá em baixo a neve chegava já em forma de gotas pesadas e geladas. Ainda que único, não há nada tão efémero como um cristal de gelo.

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Espaço/tempo

Em 1932, James R. Killian disse, a propósito das experiências científico-fotográficas do engenheiro Harold Edgerton, que a ciência «nos permite ver e compreender contraindo e expandindo não só o espaço mas o tempo». Entretanto, passaram mais de setenta anos e a ciência moderna modernizou-se, questionou o reducionismo, aproximou-se do novo holismo da complexidade, e agora contrai e expande outras grandezas, manipulando paisagens secretas que se convertem, com técnicas diversas, nas decifráveis duas dimensões da imagem técnica.

harold-edgerton-bullet-and-apple-1393704296_b.jpgHarold Edgerton

Carlos M. Fernandes

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Eu sou

Skeletons of Man and of the Male Gorilla by Roger Fenton-c.1858.pngRoger Fenton, Esqueletos de Homem e Gorila, 1860

No princípio, o darwinismo substituiu a tautologia divina, «Eu sou Aquele que sou» (Êxodo 3:14), por outra, humana e secular: «eu sou aquele que sobrevive». Sem as ulteriores sofisticações, as teorias biológicas da variação das espécies estão reduzidas ao poder de intuição que as criou e prestam-se a todo o tipo de imposturas. As (aparentemente) mais inócuas centram-se na entronização do progresso e na crença em setas temporais que nos conduzem ao paraíso evolutivo. Aquelas que nos confundem com mísseis balísticos e escravos da epigenética, de forma a justificar a tentação liberticida, são mais sérias e perigosas. Juntas, dão-nos o retrato rigoroso da decadência da civilização contemporânea.

Carlos M. Fernandes

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Animais magníficos

A pantera de Rilke, na tradução de Paulo Quintela, tem «o brando andar de passo forte e dúctil». O verso, que abre a segunda estrofe, canta, em antíteses suaves – brando e forte, forte e dúctil –, a dualidade de uma criatura nobre «em que está aturdido um grande querer». Um grande querer circunscrito pelo cativeiro – a repetição da palavra «barras», na primeira estrofe, descreve tão bem o desespero da reclusão e a inutilidade da esperança – e, de «onde em onde», derrotado por um prenúncio de morte. Não há, na história da literatura, palavras que descrevam de forma mais clara o drama da encarceração, tantas vezes voluntária, numa vida sem significado, despida da transcendência e espiritualidade que ajudam a suportar as pequenas misérias quotidianas. Há animais magníficos perdidos para o mundo por detrás de barras deliberadas.

Carlos M. Fernandes

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O comboio de Auschwitz

No livro Railways: Their Rise, Progress and Construcion, o engenheiro Robert Ritchie arriscou uma profecia: «Os caminhos de ferro iluminarão os preconceitos e contribuirão para que os membros da grande família humana se conheçam melhor; tenderão assim a promover a civilização e a paz no mundo.» Estávamos em 1846. O Concerto da Europa já se desconcertava e cem anos mais tarde limpavam-se os destroços de uma civilização quase perdida. Serve isto como aviso aos incautos, aos deslumbrados da técnica e da ligação global e dos «comboios digitais», aos feiticeiros da «inovação»: o progresso é uma ilusão, a evolução é apenas adaptação, e estamos sempre tão perto da partir pedra novamente como de aterrar em Marte.

Carlos M. Fernandes

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